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Já há muitos anos que evoluimos da era da infinita reprodutibilidade da obra cultural (defendida por Benjamim) para o tempo das redes mundiais interligadas electrónicamente de produção desta obra cultural. É cada vez mais difícil imaginar uma qualquer obra cultural que não seja logo à nascença inserida dentro da rede mundial de computadores, se é que não já foi parida para esta “existência”. Não importa o suporte: Escultura, Pintura, Textos, Video, Fotografia em película ou em matriz electrónica. As possibilidades de reprodução desta obra importam menos em sua quantidade e sim em abrangência geográfica, esta conseguida em fracções de segundos através da rede mundial de computadores interligados. Neste novo paradigma, já não é possível compreender o fazer fotográfico apenas enquanto uma técnica. É extremamente limitativo pensar a Fotografia como um conjunto de procedimentos e instruções que, cumpridos segundo o guião, resultem incontornavelmente numa obra, seja esta com fins culturais (ou ainda artísticos) ou mesmo para registo documental (fotografia forense, fotografia clínica etc.) Diversos pensadores já formularam reflexões e questionamentos sobre o fazer fotográfico. O que é fotografar? O que é a Fotografia? "A Fotografia repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente", angustiava-se Roland Barthes, na sua já célebre obra A Câmara Clara. A Fotografia é o resultado da ação (o fotografar) de um emissor (o fotógrafo) e que será “lida” por um receptor (quem vê a fotografia). “Lida” encontra-se entre aspas enquanto não justificamos, aqui, que o correcto deveria ser “ler” uma imagem, e não apenas “ver”, “olhar” ou “visualizar”. Estas últimas ações (verbos) apenas expressam parte do processo de “ler” uma imagem. Ora, a Fotografia deixa de comportar um sentido, na ausência de qualquer um destes intervenientes, seja o fotógrafo, o acto/momento escolhido para fotografar, e alguém para visualizar a imagem. A Fotografia é, por natureza, um ato, um processo, necessariamente carregado de intenção, de contexto. Está muito longe de ser uma ferramenta de registar uma “cena”, sua ancestral finalidade, quando ainda era um suporte para pintores artistas, que utilizavam a Camaras Obscura para facilitar sua atividade. Desde que os processos químicos incorporados ao artefacto permitiram a captação “automática” do cenário, nascia o processo fotográfico, e começava a morrer não a pintura, como foi apregoado por muitos artistas imagéticos, mas sim a ferramenta de suporte aos pintores. A Fotografia que nascia então da Química, e não da Óptica (Física), já carregava consigo todo uma nova sintaxe, na altura ainda não ponderada porque tratou-se, nas suas primeiras décadas, apenas da evolução tecnológica e sua aplicação documental. Em Língua Portuguesa, Ivan Lima foi o primeiro a propor uma Linguagem Fotográfica. Antes dele, entretanto, muitos haviam identificado essa necessidade da Fotografia em ser redefinida, porque não pode ser apenas um processo técnico. |